A quantas anda a literatura brasileira?
Quando ouço as pessoas perguntando sobre os rumos da literatura no Brasil, eu franzo as sobrancelhas, faço um biquinho meditativo, jogo o olhar para longe, como se enxergasse o que está para vir, e, em segredo, enquanto dou uma opinião qualquer sobre o assunto, revolvo dentro de minha cabeça as dúvidas gerais.
Poderia-se dizer: que literatura brasileira vai bem? Poderia-se dizer que estamos produzindo obras dignas de nossa história literária? Onde estão os mestres da poesia hoje? Ou pelo menos os gritos de inovação? Onde estão os romancistas capazes das obras-primas? Onde estão as narrativas fundantes de um novo tempo?
São ou não são estas as perguntas que se impõem a respeito da literatura brasileira?
Como resposta a todas elas, ao que parece, a maioria dos críticos, dos resenhistas, dos estudiosos, dos interessados e até mesmo dos escritores, apontam para Ulna crise na produção. Qualidade inconstante, dizem. Quando boa, não o suficiente para estabelecer uma nova ordem. Sem fôlego, sem viço. Esta maioria identifica uma entre-safra, e considera-a um fenômeno natural, levada em conta a agitação deste século, que aparentemente gastou a capacidade criativa nacional.
Resumido, o juízo final diz: o cenário da literatura hoje é um quadro sem referências, uma geléia pouco substanciosa, incapaz de inovar, de transformar, de revolucionar.
Longe de mim qualquer atitude corporativa. Também já confessei que não tenho o monopólio das respostas. Mas sinto-me tentado a questionar um pouco o pessimismo reinante, e do qual, nos meus dias ruins, sou mais uma das vítimas. Reconheço que os livros publicados hoje parecem aquém da grandeza necessária para ingressar no rol das obras prima. Apenas me pergunto se é mesmo a literatura que é de baixa qualidade, ou se somos nós que estamos cegos para o valor intrínseco das obras que lemos, e deixamo-nos influenciar pelo descrédito disseminado.
Imaginando quais razões possíveis para esta cegueira, ocorrem me algumas, certamente não todas. A primeira delas poderia ser a própria ausência de um modelo estético hegemônico. Sem ter um suzerano a quem servir e oferecer fidelidade, os escritores mergulhariam em suas próprias correntes, seguindo cursos individuais e por isso mesmo destituídos do elemento institucional, tão importante para a cristalização das obras primas. Sem modelo estético hegemônico, não há aglutinação, sem aglutinação não há consenso, sem consenso não há obra-prima.
Mas por que a lacuna no topo da hierarquia estética? Segundo os especialista no passado todo o modelo estético hegemônico, de certa forma, apoiava-se e retratava uma determinada concepção de sociedade, uma determinada ideologia, em contrapartida legitimando-a e engrandecendo-a. Então não temos obras-primas devido ao tão propalado fim das ideologias? Pode ser, para quem acredita que elas realmente tenham acabado. Mas e o neo-liberalismo, não seria a ideologia vigente? Não traz em seu bojo uma concepção de sociedade? E toda ideologia não precisa de obras que a engrandeçam e legitimem? Para quem acredita nestas hipóteses, não há outra explicação possível senão a que vê no neo -liberalismo justamente a ideologia fomentadora da individualização, desta pulverização das forças criativas. Em decorrência disto, seu grande paradoxo seria que, .por sua própria natureza, ele impede a consagração de sua obra prima e, através dela, de si mesmo no campo das artes.
Se a ausência de um modelo estético supremo, qualquer que seja a razão desta ausência, inviabiliza o estabelecimento de uma obra-prima “situacionista”, ela também inibe a erupção das obras primas de oposição. A história de qualquer literatura, inclusive a brasileira é neste século e em alguns passados, marcada pelos confrontos dos padrões tradicionais com os revolucionários. Coisas do tipo: Classicismo X Romantismo, Romantismo X Simbolismo, Modernismo e Concretismo contra todo mundo ao mesmo tempo. Este tradição literário-belicosa foi bem propícia ao surgimento de obras revolucionárias, fundantes de uma nova ordem. O obstáculo institucionalizado à criação do diferente sempre foi estimulante.
Contudo, para a geração de escritores agora em atividade, uma frase do tipo “vou revolucionar esta forma de arte” é uma bravata, e não um projeto. Não há barreiras para a criação contemporânea, não há repressão organizada contra coisa nenhuma. Tantas experimentações artísticas foram feitas neste século que, tudo indica, já se chegou ao limite da novidade. Já se expôs muita tela em branco com status de arte conceitual. Já se chamou silêncio de música. Já se desconstruiu mil vezes todas as formas narrativas e poéticas. Será que não se criou uma certa “nostalgia do novo pela novidade em si, e não pela qualidade orgânica da obra, ou por sua adequação ao tempo em que é produzida?. É possível revolucionar uma ordem que não existe como tal?
Neste mundo em que não há embate frontal, em que não há disputa pela legitimidade absoluta porque ninguém possui esta legitimidade absoluta, os artistas em geral, e os escritores em particular, veriam-se obrigados a desenvolver uma nova identidade e uma nova forma de atuação. As palavras de ordem então seriam: sinceridade e humildade. Sinceridade porque, não havendo referências externas indiscutíveis, deve-se prestar contas à própria consciência. Deve-se estar visceralmente envolvido no que se está fazendo. E humildade por razões óbvias. Infelizmente, esta nova identidade e atitude dos artistas também não é lá muito adequada ao surgimento de contos literários.
Mas, ao invés de lamentos, quem sabe deveríamos entoar louvores à liberdade da qual gozamos, escritores e público? Quem sabe esta ausência de balisas estéticas não institui um momento privilegiado’? Quem sabe as obras-primas de nosso tempo não estão por aí, sem que estejamos capazes de identificá-las, só porque não nos acalentam ou nos afrontam especialmente, ou porque não representam mais correntes coletivas de criação?
Há ainda outro caminho possível para explicar este ceticismo em relação a nossa literatura, que seria a difusão possibilitada pela mídia. Esta difusão não tem precedentes na história, tanto na quantidade de obras cobertas quanto na rapidez com que os livros aparecem e desaparecem dos veículos. Sua única característica originária de outros tempos é uma certa dose de sensacionalismo atávico, que não ajuda em nada, pois faz o público desconfiar dos escritores sobre os quais lêem e ouvem falar. Afinal, que muitas vezes não têm o estofo anunciado e quase sempre tem a durabilidade das borboletas. Nesta farfalhação geral de asas, fica impossível saber quem é borboleta de fato quem é besouro disfarçado.
Em decorrência deste mesmo fenômeno, saudosistas incorrigíveis, nos agarramos aos mitos literários do passado remoto ou recente, pois são as únicas referências que ainda temos. Só não vale lembrar que, em vida, muitas vezes estes nossos ícones não gozaram da unanimidade que hoje usufruem, ou lembrar que os mitos antigamente freqüentemente se construíam à sombra de interesses organizados, que os mitos de antigamente muitas vezes discordavam uns dos outros, ou que, por exemplo, Guimarães Rosa achava Mário de Andrade destituído de senso estético, ou lembrar que a maioria dos modernistas adoravam a poesia de Augusto Frederico Schimdt, que hoje quase ninguém lê, ou ainda que o discurso do tempo faz, desfaz e refaz os mitos e as referências. Se lembramos tudo isso, acabaríamos perdendo as poucas orientações que ainda conservamos, e acabaríamos sendo obrigados a ser menos severos com esta porcaria que é literatura contemporânea.