A outra arte de Franco Zefirelli

Franco Zefiretti de nascimento, Zefirelli, por  erro do escrivão, ele se destaca há décadas no mundo do teatro, das óperas, e também do cinema. Cenógrafo, antes de tudo, já dói também autor e escritor, e costuma acumular as funções de figurinista, diretor e produtor. O Palácio Ruspoli, em Roma, apresenta até o dia 23 de abril uma exposição com os pontos altos da carreira de Zefirelli como cenógrafo. “ Há muito tempo eu sonhava que me fosse oferecida a oportunidade de mostrar ao público o meu trabalho de cenógrafo, que frequentemente é considerado subsidiário da minha atividade mais reconhecida de diretor” diz Zefirelli.

Não é fácil separar cenografia de Zefirelli de sua direção. Na concepção dos cenários ele utiliza sua formação acadêmica. Mas, ao faze-lo busca um efeito dramático muito preciso. Especialista na montagem de tesouros da dramaturgia, como Shakespeare, Pirandello e Molière, ele sabe que, com cenografia adequada e direção equilibrada, é possível dar vida a textos tão conhecidos  que, de outra forma, qualquer ator correria o risco de soar com a espontaneidade de uma secretária eletrônica.

Isso foi o que Zefirelli procurou evitar com os cenários de sua famosa montagem de Romeu e Julieta, de 64, incluídos na exposição. Na cena do balcão, Romeu não encontra a fatídica escada me leva à de Julieta. Em nome de maior autenticidade, Zefirelli colocou um muro, obrigando Montecchio a efetivamente vencer obstáculos para alcançar seu amor. Como se vê, a direção, a cenografia e o espírito da obra estão intimamente ligados.

Erros e acertos – Exageros de Zefirelli

Franco Zefirelli costuma dar o mesmo tratamento às opéras, outra paixão sua. Na montagem da ópera de Puccini, La Boheme, de 1981, Zefirelli soube explorar ao máximo os contrastes entre os cenários sombrios e fechados, e o cenário esfuziante das agitadas ruas de Paris do século XIX. Desta forma, ficou bem marcada a oposição entre o ambiente triste e solitário dos personagens principais, e o abismal egoísmo da massas nas grandes cidades. Por esse tipo de sensibilidade, o crítico de teatro Gianandrea Gavanezzi afirma que os valores básicos das produções de Zefirelli são “conferir uma visualidade ao texto dramático e musical com um olhar crítico pessoal, uma imaginação dinâmica, e sem trair o senso histórico da obra e do compositor.”

Mas os elogios nem sempre são unânimes. Quando erra a mão, Zefireli é capaz de inundar o palco de tantos adereços e rorocós que acaba comprometendo o próprio desenvolvimento do espetáculo. Esse é o caso dos cenários de sua montagem da ópera Turandot, de 1987. Zefirelli foi acusado na época de ter sobrecarregado o palco de tal maneira que a platéia de esquecia que tinha ido ao teatro para ouvir a música de Puccini, e mesmo que se lembrasse, ficaria ofuscada pelo cenário exagerado.

De qualquer forma, o material exibido no palácio Ruspoli tem um valor que ultrapassa a “ simples” adequação cênica das obras, e a isso que Zefirelli se refere quando coloca seu trabalho como cenógrafo independente de sua direção. As belas pranchas com esboços cenográficos são pinturas a óleo, aquarelas, desenhos a bico depena, pastéis e colagens, que revelam um talento desconhecido de Zefirelli, o de artista plástico.Não é nunca uma arte totalmente independente do figurativo, totalmente aberta para experimentações visuais, mas revela seu domínio sobre uma gama enorme de instrumentos da pintura.



JORNAL: da Tarde – São Paulo
DATA: 05 de abril de 1993.
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