A metamorfose
Reconhecimento
Gregor Samsa acordou, mas não abriu os olhos. Acordou e ficou imóvel na cama. Pouco a pouco, foi reconstruindo mentalmente sua vida. Lembrou do trem que precisava tomar, do horário, do chefe, dos odiosos colegas de profissão, do dinheiro, da doença na família…
Logo viriam tirá-lo do quarto. Escutou passos na casa. E, de repente, teve medo, muito medo. Quis virar de lado, para a posição fetal, encasular-se sob os cobertores, como se ainda tivesse dormindo.
Foi quando viu.
O abdome voltado para cima, dividindo em gomos ventrais nitidamente entalhados. Quatro pares de pernas, segmentadas em duas partes. Globosas e lisas no encaixe com o tronco; nas pontas, mais finas, tortas e serrilhadas. As costas, embora pouco à mostra, eram pretas, rígidas e brilhantes. Uma casca, enfim. Como todo o corpo, a pequena cápsula cefálica estaca paralisada, atenta, sentindo o momento e o quarto a sua volta.
Gregor escutou o pai sendo levado ao banheiro pela mãe e, finalmente, a irmã juntando-se a eles. Ouviu um escarro matinal, e as secreções esverdeadas caindo lentamente na pia branca. Seu pai era inválido e vivia rodeado pelas mais fiel das platéias, a família. Todos os dias a mesma coisa. Todos os sons conhecidos.
Sua mandíbula se abriu, mas o grito veio diferente, impossível. Num frêmito súbito, as asas tentaram escapulir por uma fresta da casca dorsal. Em vão. As antenas, cansadas e tontas, perambularam no ar, procurando já sem esperança algo em que as pernas se agarrassem. De barriga para cima, o mundo era muito diferente, e maior. O rodapé do quarto, as paredes, a cama.
Então o inseto viu.
JORNAL: Folha de São Paulo – São Paulo
DATA: 30 de maio de 1999.
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PÁGINA: 05