A Gazeta | A dinâmica das larvas
JORNAL: A Gazeta – Espírito Santo.
DATA: 27 de outubro de 1996.
SEÇÃO: Livros
PÁGINA:
Reflexão sobre a ansiedade humana
|| Por Marzia Figueira
A comedia “trágico – farsesca” do subtítulo de A Dinâmica das Larvas, escrita por Rodrigo Lacerda, depois de o autor ter recebido o Premio Jabuti /96 de Melhor Romance e o Premio CBN da Bienal do Livro por o Mistério do Leão Rampante, foi lançada em setembro pala Nova Fronteira. Com direito a noite de autógrafos na livraria da Vila em São Paulo.
Rodrigo Lacerda, 28 anos, é, entretanto carioca, formado em História, pesquisador, tradutor e, last but not least, neto de Carlos Lacerda – mas não é culpa sua … Afinal, como se sabe, ninguém é perfeito. Mas ele é o responsável pelo mau gosto do titulo A Dinâmica das Larvas, que não atrai o leitor – ao contrario o repele, e do tema – o próprio. Ou seja, larvas, como todo seu aspecto asqueroso, inclusive retratado na capa, de Victor Burton, sobre desenhos de Saul Steinberg e Grandville. Uma edição bonita do livro que deve fazer o leitor dedicar um pouco seu tempo as primeiras linhas/ páginas. A partir de então estará preso à leitura, não apenas pela curiosidade inicial e o interesse crescentes, mas pelo estilo de um escritor pronto. Quem é bom já nasce feito, diz o ditado popular, E foi o que aconteceu com Rodrigo Lacerda. É com, já nasceu assim.
Quem leu o Mistério do Leão Rampante, mesmo antes de ter a mínima idéia de que seria premiado, entende. E agora tem a oportunidade de se divertir – e refletir – com uma trágico –media, uma farsa ao gênero antigo transposta para a atualidade. Uma sátira aos costumes modernos, uma crítica aos hábitos contemporâneos, tudo isso bem misturado para que o resultado seja o que é: uma leitura de impacto. Em que os personagem gravitam no meio editorial – como poderia ser em qualquer outro meio, mas porque é o meio que o autor sempre viveu. Apenas quatro personagens: um editor universitário entediado com o serviço publico, que alimenta a esperança de ter sua própria editora e publicar títulos populares descartáveis, um editor de literatura desiludido com a profissão mas que dela quer usufruir mordomias, uma executiva maquiavélica que usa o sexo para manipular todo mundo, e um escritor – professor -zoólogo completamente louco, no ponto para internar.
O livro é uma peça de teatro. Como observa o próprio autor, “ o terreno por excelência deste tipo de comedia é o teatro, o texto dramático, e não a prosa” .Então, perguntará o leitor, por que a Dinâmica das Larvas é em forma de livro? Simples: porque Rodrigo Lacerda, como “queirosiano inveterado”, é “ prolixo demais” para reduzir suas intervenções a “meras rubricas cênicas” o que ele chama de “ deformação”. Assim, ousadamente, atualiza o conteúdo emocional do gênero e modifica a maneira de apresenta-lo. Com sucesso, diga-se en passant
Os personagens, através dos quais o autor expressa livremente suas opiniões a respeito do meio editorial em que trabalha e da própria sociedade em que vive, são levemente humorísticos, ligeiramente cínicos, absolutamente amorais. Cada um, a sua maneira, quer mudar- como a larva, execrável figura escolhida por Rodrigo Lacerda para “símbolo” e objeto da loucura do escritor, redimensionar a própria vida, e se vêem envolvidos num jogo intrigante, em função de um premio literário de importância fundamental para seus planos. A dinâmica das larvas – arghhh – , e é o escritor em seu delírio que proclama, é “ mais eficiente em que a dos homens”. Elas “assistem com tranqüilidade aos passar do tempo, são capazes de transformações indolores em suas vidas, são tão perfeitas em suas adaptações às exigências da natureza que se metamorfoseiam apenas uma vez na vida”.
Eis que o escritor alucinado propõe que o homem, ao longo de seu ciclo vital, “ dispusesse de períodos larvais”. Para ele, o ideal seriam os “homens – larvas”, capazes de metamorfoses dignas do nome, e não arremedos de transformações”. Segundo a tese do cientista – maluco, “ a fome de viver das larvas não se liga à vida que têm, mas às promessa de mudança, e nisto os homens soa muito semelhantes. As larvas também existem movidas pelo objetivo de uma nova existência, só que ao contrário dos homens, não rejeitam a vida presente, colocam-na a serviço da vida futura. Ao contrário dos homens, não embarcam numa interminável e faústica sucessão de transformações… Viver para mudar, com a tranqüilidade e a eficiência das larvas, esta a resposta para todo a ansiedades dos homem”.
Admiravelmente vem escrito, o novo livro de Rodrigo Lacerda não é indicado para o leitor chamado estômago fraco. Já que a larva propriamente dita não passa mesma da vulgar minhoca, como o nome cientifico mais ou menos imponente de “ Lumbricus terrestris”, e suas variantes, a minhoca-brava, a cobra – sem – cabeça, a cobra – cega, a minhoca – louca, o minhocuçu…