A filha | Outra vida
A filha
Durante toda a gravidez da mulher, e naqueles primeiros dias, o próprio pai temera não saber se comunicar com a bebê. Se com os adultos já era tímido, atrapalhado pelo próprio tamanho, tinha aflição até de chegar perto de um ser com menos de três quilos e uns poucos centímetros, que não falava e mal abria os olhos. Podia machucá-la só de encostar, como um Midas cujos dedos produzissem hematomas em vez de ouro. E se esmagasse os ossos da filha num abraço? Todos punham em dúvida sua capacidade de cuidar da recém-nascida. Até a sua mãe parecia hesitar. Havia nas famílias um silencioso consenso de que ele era grande, pesado e desajeitado demais.
Das primeiras vezes, temeu que a filha “sugasse” estes maus fluidos e o rejeitasse também, como ao leite da mãe. Mas assisti-la chorar no berçário, com solidão e raiva no rosto, tratada com total profissionalismo pelas enfermeiras (o que lhe pareceu uma insensibilidade), e custando a ganhar peso, tudo isso havia despertado nele uma absoluta urgência de comunicação.
Em silêncio, o pai se perguntava: o que poderia sentir um bebê a quem fazia mal o leite da mãe? O que poderia sentir a mãe cujo corpo negava à filha o alimento essencial? Como viver essa contradição da natureza? Chegou a pensar que a menina, ali no berçário, durante as primeiras horas, tivesse experimentado a iminência de se derramar. Afinal, ela não contava com o peito da mãe para reabastecê-la, fora tirada de uma bolsa d’água, tinha o corpo composto por 70% de líquidos e era naturalmente incapaz de controlar seus orifícios. Portanto, nada mais lógico do que o medo de desmanchar, de se escorrer, de derramar sua vida pela boca, pela vagina, pelo ânus, pelas orelhas, pelas narinas, por todos os poros.
Ele não se arriscou, com medo de ser ridicularizado, a contar aquelas fantasias que projetava no bebê. Não contou nem mesmo para a mulher, cujo sentimento de culpa talvez aumentasse diante dessas idéias. A cada vez que tinha a filha no colo, apenas rezava por uma compreensão intuitiva daqueles sentimentos recém-nascidos de parte à parte. Investia na troca de olhares e tratava de ampará-la com o máximo de delicadeza, abraçando-a por inteiro, cobrindo-a desde os pés até a área sensível das costas, da nuca e da parte de trás do crânio, para protegê-la do campo sonoro ao redor. Para ela, o mundo deveria ser feito de vozes estridentes ou grossas demais, gritos, guinchos mecânicos, urros selvagens. A filha viveria assombrada por monstros sonoros onipresentes, fora do seu campo de visão.
Além de não conseguir amamentar e sofrer rompantes de choro, a mulher começou a apresentar os outros sintomas da depressão pós-parto: o sentimento de culpa e de impotência, a incapacidade prática de cuidar da filha, a total falta de apetite e de ânimo para se alimentar, a prostração quase permanente em cima da cama. Nada podia explicar aquilo; os médicos limitaram-se a dizer que, nesses casos, o parto revelava-se um evento traumático, detonando uma reação à história passada da mãe, além de drásticas mudanças hormonais.
Enquanto a mulher lidava com a depressão e se recuperava da decepção com o próprio corpo, uma empregada paga pela mãe dela cumpria o papel deixado vago durante o dia. Sempre que o pai estava em casa, porém, ele fazia questão de se encarregar da troca das fraldas, de aprontar a mistura de óleo de amêndoas e pomada anti-assaduras, que deixava num pote ao lado do trocador, de acordar à noite e esquentar a mamadeira ao ouvir o choro da filha, ou de sentir com o cotovelo a temperatura ideal da água do banho. Quando pela primeira vez a filha adormeceu no seu peito, relaxada entre seus braços enormes, ele ficou se achando o melhor homem do mundo. Um pai quase mãe. Era como se a falta do leite o tivesse igualado à mulher.
A esposa o amou profundamente durante aqueles meses, aproveitando para valorizá-lo aos olhos de seus pais. Estes, porém, e os outros parentes, de tão surpresos com aquele desempenho, jamais diriam que a ligação bizarra, entre o anjinho de cinqüenta centímetros e o brutamontes de quase dois metros, decorria da intuição que o pai tivera do horror vivido pela filha logo após o nascimento. Ririam dessa explicação, até. Se ele demonstrara ter jeito com criança, a explicação lógica decorria do fato de isso ter sido absolutamente necessário. A carência vital da filha, e não seus méritos pessoais, tinham feito o milagre.
A mulher, com o passar dos meses, foi superando a crise. Neste processo, foi ajudada por um psiquiatra (mais uma despesa paga pela avó da criança). Como não estava mesmo amamentando, pôde tomar sem hesitação os anti-depressivos que lhe foram receitados. A intervenção da bioquímica, gradativamente, lhe deu certa naturalidade em seu novo papel. Com a menina crescendo e a mãe se reerguendo, tudo pareceu caminhar para o bem.
Uma vez em seu estado normal, a resposta da mulher à condição materna foi a mais previsível de todas, isto é, uma reprodução consciente e inconsciente do modelo que aprendera com a própria mãe. Com carinho e autoridade, às vezes mais uma do que o outro, ela cuidava para que a menina não se sujasse, não corresse pelo apartamento, não falasse alto e nem de boca cheia, não mastigasse de boca aberta e nem apoiasse os cotovelos na mesa. “Brincar quietinha”, tornou-se uma palavra de ordem.
Um dia, quando a filha tinha uns dois ou três anos, o pai comprou para ela um brinquedo chamado “A Mulher Visível”. Consistia em uma boneca cuja pele era, da cabeça aos pés, um plástico transparente e rígido, dividido em duas partes encaixáveis, frente e costas. Ali dentro se acomodava o esqueleto, de plástico branco, muito detalhado e científico, articulado por meio de pequenos ganchos flexíveis. E entre a caixa torácica e a bacia se acomodavam, por sua vez encaixados entre si, os pequenos órgãos multicoloridos (o coração vermelho, o estômago meio marrom, os pulmões arroxeados, o fígado verde etc.). A filha ficou excitadíssima diante da aula de humanidade e, junto com o pai, terminada a montagem, pôs a Mulher Visível em seu pequeno pedestal redondo. Mas logo ela quis continuar mexendo no brinquedo novo, e pediu-lhe que colocasse na boneca agora os componentes da versão grávida de seu corpo – o feto, a bolsa, o útero, a “pele” transparente da barriga maior. Enquanto o pai mexia no corpo de plástico, a menina fitava suas mãos imensas com um olhar excitado.
O resultado daquela brincadeira, contudo, foi muito além do que ele poderia imaginar. Semanas depois, a filha procurou-o para ajudá-la a abrir suas bonecas. O pai, meio atônito, demorou a identificar de onde viera a idéia. Tentou demovê-la, dizendo que iriam estragá-las, mas a menina insistiu. Então, enquanto estripava as bonecas, sentindo-se um novo tipo de assassino, de tarado, recriminou-se por ter aceito fazer o serviço sujo e ficou com medo de a mulher, chegando em casa, ver e ficar brava.
“Que qui tem dento dessa?”, a menina perguntava a cada boneca que abriam, com o jeito de falar que ainda tinha na época. Estava realmente disposta a tirar a limpo; era palha, espuma, macela ou elásticos? Depois da terceira ou quarta boneca, intrigado com aquela curiosidade mórbida, o pai perguntou à menina do que ela achava que ele era feito por dentro. Levou um susto quando a filha, sem hesitar, respondeu:
“De puma.”
Estranhando a convicção, ele quis saber mais:
“E por quê de espuma?”
“O papai é mole.”
Era uma frase que o homem já devia ter ouvido da esposa mais ou menos um milhão de vezes – por exemplo quando a filha acordava à noite, assustada por algum pesadelo, e a mulher, em nome de “criar caráter”, insistia em deixá-la chorando no quarto até que dormisse outra vez; ou quando a menina fazia manha e a mãe o impedia de contemporizar; ou ainda quando a mulher recriminava-o por sua falta de ambição profissional. Mas, na boca da filha, ele esperava, a avaliação de sua consistência deveria ter outro sentido.