A alma interiorana de Autran Dourado
No micro universo de “Os Melhores Contos”, percebe-se a habilidade estilística do escritor na representação da vida brasileira.
A coleção Os Melhores Contos, dirigida pela escritora Edla van Steen e publicada da editora Global, é um daqueles projetos editoriais tão simples e tão imprescindíveis que deveria fazer os demais editores se perguntarem: “Por que eu não pensei nisso antes?”. Ela é composta por volumes que reúnem o que de melhor determinado autor produziu no terreno das chamadas prosas ficcionais breves, em outras palavras, os contos. O lançamento mais recente é dedicado ao escritor mineiro Autran Dourado.
Aos 71 anos de idade, Waldomiro de Freitas Autran Dourado publicou até agora quatro livros de contos, ou seis, dependendo do ponto de vista. É fácil explicar o porquê dessa dúvida. O primeiro, Três Histórias na Praia, saiu em 1955. Dois anos depois, acrescido de novas histórias, o livro foi republicado com o título Nove Histórias em Grupos de Três. Em 1972, com mais três contos inéditos, o livro foi novamente lançado, e com outro nome, Solidão Solitude. Além desse primeiro livro, ou três primeiros, Autran Dourado lançou ainda, exclusivamente de contos, Armas e Corações, em 1978, Imaginações Perigosas, em 1981, e Violetas e Caracóis, de 1987.
Outra característica positiva da coleção Os Melhores Contos é a figura do organizador do volume, responsável pela escolha dos contos e pela apresentação do livro. A seleção tem por objetivo reunir as peças mais representativas das várias linhas exploradas por cada autor em sua produção como contista. Já a apresentação necessita justificar perante o leitor o resultado da seleção, além de introduzir noções elementares sobre o estilo e os temas recorrentes da obra do autor em questão. Sendo assim, cada volume deixa de ser uma simples reunião de contos, apanhados a esmo ou montada exclusivamente a partir de um critério de notoriedade das peças, para se transformar numa antologia construída a partir de uma leitura mais profunda do autor enfocado, que reproduz uma interpretação do conjunto de sua obra. João Luiz Lafetá, outro mineiro, professor renomado de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, morto em 1996, é quem assina o volume sobre Autran Dourado.
Dos dez contos reunidos na antologia agora lançada, ao menos oito tem como cenário explicitamente mencionado uma cidadezinha imaginária do interior de Minas, Duas Pontes. É a partir dela que Autran Dourado constrói sua representação da vida brasileira. Nela convivem figuras emblemáticas, como Donga Novais, fiel depositário da memória municipal, ou o dr. Viriato, o médico pedante e mulherengo, entre outras, que parodiam irônica e humoristicamente a sociedade brasileira. Esses personagens podem ser protagonistas numa determinada narrativa, secundários em outra, e simples referências numa terceira. De qualquer forma, aparecem e reaparecem a cada momento. Mas eles funcionam também como observadores da crônica municipal, criando, em quase todos os contos, uma série de vozes que interferem na narrativa principal, tecendo cada qual a seu estilo, e bem marcado, comentários sobre personagens ou acontecimentos. É nessa função que eles criam, digamos, a “alma” interiorana da literatura de Autran Dourado, a vigilância preconceituosa e mesquinha das fofocas e intrigas. Nesse ir e vir de personagens, eles cunham frases que reaparecem, protagonizam episódios que são citados em outras histórias, e assim dão unidade às narrativas contidas nessa antologia.
A repressão, a vigilância disseminada da vida numa cidade do interior é, até mesmo, um tema importante no grupo de contos aqui reunidos. Pelo menos dois deles, “Violetas e Caracóis” e “O Triste Destino de Emílio Amorim”, são narrativas nas quais a repressão é o assunto enfocado. No primeiro, por exemplo, uma jovem reprimida sexualmente e, no sentido literal da expressão, à beira de um ataque de nervos, provoca ebulições de luxúria em seu clínico e em seguida em seu psiquiatra. Vale acrescentar que o uso constante de noções de psiquiatria freudiana na construção de suas tramas, de seus personagens e mesmo de suas estruturas narrativas, também é freqüente, o que evita, em grande medida, que ela se transforme numa estrita comédia de costumes, com personagens mais para o caricato que para pessoas de carne e osso.
No conto “Os Mínimos Carapinas do Nada”, que abre o volume, Autran Dourado trata de outro tema que lhe é caro, a gratuidade do processo criativo. Nele, vários moradores de Duas Pontes se dedicam a desbastar lasca à lasca toquinhos de madeira, até que simplesmente evaporem nas mãos de seus “escultores”. Cheio de ironia, e ao mesmo tempo de sinceridade, o autor fala desse atividade como se fosse a quintessência da vida humana na Terra. No último conto, “A Glória do Oficio”, novamente o “não fazer” é tido como algo admirável. O personagem principal admira o avô e o primo, mestres em coisa nenhuma, na contemplação pura e simples, enquanto ele próprio sempre tende a desmontar e reconstruir o objeto contemplado, para em seguida se desencantar com o ofício.
Mas nem só de ironia e humor se faz a prosa de Autran Dourado. Há também.a sua contrapartida lírica sentimental. Muitos dos contos desse volume, por sinal, transitam entre as duas facetas de sua literatura. Porém, dois deles cristalizam seu veio mais sentimental: “Manuela em Dia de Chuva” e “Mr. Maare”. No primeiro, sobretudo, a emoção é construída de forma soberba. É a história de uma menina cujo irmão foi morto acidentalmente pelo próprio pai, mas que não consegue entender o sentido exato das movimentações da família no dia do velório e muito menos prever o alcance do desastre que se abateu sobre sua família. Mas o leitor entende, prevê e sente a dor que ela não sente.
Do ponto de vista estilístico, Autran Dourado possui uma prosa híbrida, cuja base está num fraseado rico e, aqui e ali, um tanto rebuscado, com vago traço barroco, mas que se mescla a expressões coloquiais e até mesmo a neologismos criados pela fala oral interiorana.
O fraseado longo e sonoro de sua prosa é visível no trecho: “De raízes rasas em Duas Pontes, Elias Nasser não possuía nem de longe, e disso não cuidava, o desembaraço e a segurança de um Júlio Macedônio, homem de força e tutano, da boa velha cepa de um Honório Cota, do terrível Lucas Procópio de outras eras, por exemplo”; e o coloquialismo neste outro: “Gostava do povinho miúdo e simples, natural, sem afetação ou caridade semostradeira.”
Sua habilidade em variar as estruturas narrativas, entre um conto e outro ou mesmo dentro de uma só história, fazendo uso de monólogos, fluxos de consciência, intercalando discurso indireto e direto no encadeamento da trama, dão a sua obra uma flexibilidade estilística bastante moderna. Isso não apenas relativiza o caráter arcaizante que o traço barroco poderia indicar, mas também o mantém em contato com o presente, apesar da recorrência a um cenário e a personagens que evocam uma vida tão distante da vida urbana dos dias de hoje.
JORNAL:Jornal da Tarde – SP
DATA: 17 de janeiro de 1998
SESSÃO:Caderno de Sábado
PÁGINA: 7