A alma do negócio

No silêncio do restaurante japonês, protegido contra a umidade cinzenta do dia, bebericando languidamente num cálice esguio de vinho branco e mastigando com ar reflexivo sua última dupla de ovas de peixe-voador, o Lara pensava em trabalho. Verdade seja dita, como bom homem de propaganda, o Lara só pensava em trabalho.

Essa obsessão era sua forma de proteger-se contra os eventuais erros de estratégia de sua equipe, ou contra os desejos disparatados de seus clientes. Irritava-o sobremaneira qualquer desconhecimento da teoria e da prática da propaganda. Para diminuir o coeficiente de ineptos no mercado, até havia escrito um livro sobre o assunto, ao qual, com fervor religioso no último ano e meio, dedicara todo o seu tempo livre. Adiando o sono, antecipando o acordar, de fato não largara seus originais até completá-lo há poucas semanas. Entitularia-se “Guia para a Compreensão e o Uso da Publicidade”.

Apenas um obstáculo retardava o envio do trabalho às editoras: faltava ao Lara a indispensável epígrafe de abertura, aquela frase mágica, iluminada, capaz de sintetizar todos os seus ensinamentos e gravá-los para sempre na cabeça dos leitores. Já fizera o diabo para livrar-se daquela humilhação intelectual, para encontrar a pérola consagradora de seu livro. Procurar por ela, mais do que tudo, era trabalho, e o Lara só pensava em trabalho. Porém, todos os seus esforços haviam sido inúteis, e essa missão, como nenhuma outra em sua trajetória profissional, tivera a capacidade de estafá-lo, desanimá-lo, deprimi-lo.

Por isso estava ali, no restaurante, ainda pensando em trabalho, mas com aquele ar de náufrago, habitante de uma ilhota no oceano de frases já cogitadas – o cardápio de sua refeição vinha bem a propósito. Naquele momento, sentia-se rodeado por uma profusão de frases quase perfeitas, diante da qual sentia-se entorpecido, atordoado, levado ao esgotamento mais completo, físico e mental. Seu olhar, exausto, arrastava -se melancólico em direção à rua, como o de alguém que fita o horizonte vazio, e transpunha desanimado as vidraças do restaurante. Os cabelos caíam-lhe na testa, os óculos de armação azul escorregavam-lhe pelo nariz. Ele assistia ao movimento triste da rua e de sua crise criativa.

- O senhor está satisfeito?

Desviado de sua auto-comiseração, o publicitário respondeu ao garçom:

- Estou. A conta, por favor.

Minutos depois, tendo o Lara sorvido os últimos goles de vinho e estando a conta já paga, um estrondo e um clarão anunciaram a chegada de uma tempestade.

- Raios – praguejou o Lara.

- Sem trocadilhos, doutor – pontoou o garçom com um sorriso amigável, enquanto limpava a mesa.

O publicitário respondeu com um olhar de ferocidade silenciosa e despediu-se, rispidamente:

- Até logo.

Do lado de fora do restaurante, debaixo da marquise e cercado por grossos estalos de chuva na calçada, quando já prestes a disparar rumo ao automóvel, o Lara viu um homem sentado no chão. Ficou intrigado. Ao analisar a aparência do sujeito, ficou ainda mais intrigado. Sua cor de pele não era de fácil classificação, sua idade era igualmente vaga, suas feições eram destituídas de qualquer característica marcante. Suas roupas eram discretas demais, a ponto de não revelarem coisa alguma de sua personalidade. O sujeito era o pavor dos sociólogos, indecifrável. Inexplicavelmente, mesmo sentado no chão da rua, transmitia uma certa gravidade em sua postura. E logo o publicitário viu o que lhe havia inspirado essa sensação. Aberto sobre os joelhos do desconhecido, um belíssimo livro se deixava folhear. Era um volume de respeito, tanto pelo alto número de páginas quanto pela fina encadernação.

O espírito do Lara, até há pouco empapado de melancolia, agora retorcia-se em cãibras de curiosidade. “Os publicitários também vivem de identificações sociológicas, afinal de contas”, pensava ele, “e esse homem é um seríssimo desafio profissional”. Decidiu arriscar um contato:

- Amigo…

- Pois não… – respondeu o homem, com um ar fleumático.

- Hãan… Desculpe orne intrometer, mas… o que você está lendo?

- O senhor é…? – perguntou o desconhecido.

- Ricardo Lara, muito prazer.

- Produtor musical? Publicitário? Jornalista cultural?

Atordoado com a argúcia do sujeito ao adivinhar-lhe a profissão, o Lara não se fez de rogado. – Publicitário. Como soube?

- Aprendi neste livro a reconhecer as pessoas.

- Que livro é?

- Um dicionário de citações.

É fácil entender o impulso do Lara em carregar aquele ser misterioso dali mesmo para sua casa. Pessoas em busca de epígrafes e leitores de dicionários de citações atraem-se mutuamente.

Todo gentil, o Lara recebeu-o com a maior hospitalidade. Passaram uma tarde agradável, saltando de assunto para assunto, com mútua simpatia um pelo outro. O desconhecido só fugiu de um tema, ele próprio. Não quis falar do passado e nem disse o nome. Confidenciou apenas, para surpresa do Lara, que o dicionário de citações era o único livro do mundo que o havia interessado. “Tudo está aqui, meu caro, da certidão de nascimento dos dinossauros até as manchetes de hoje. Acredito que não se deveria ler outra coisa. A busca pelo aprofundamento do saber é, em bom português, sarna para quem gosta de se coçar. Não acredito na construção cumulativa do conhecimento. O gênio é muito mais intenso quando em fagulhas.”

Frases como essas deixaram o publicitário rendido, desarmado, fascinado. Contrariando qualquer noção de prudência, o Lara propôs ao desconhecido que se hospedasse na casa. Em troca, assumiria o compromisso de ajudá-lo a encontrar a tão sonhada epígrafe, usando de toda a sua experiência no melindroso terreno das citações. Proposta aceita, iniciada a convivência, o homem agiu de maneira misteriosamente afável. Ilustrando a conversa com as citações que aprendera, mostrava uma inteligência fluente e espirituosa, mas sem perder a reserva, a indiscrição, a cerimônia. Nos gestos, na fala, um impecável cavalheiro; na essência, uma pessoa enigmática, um homem sem rosto.

Durante duas semanas conversaram todas as noites, com o Lara prazerosamente instigado. Nem se importava que a epígrafe custasse surgir, ela viria naturalmente, era só dar tempo ao tempo, conhecerem-se melhor…

O desconhecido provara-se tão inteligente que havia, inclusive, ajudado o Lara na solução de alguns problemas de trabalho. Por exemplo quando uma empresa estatal, monopolista de determinada matéria-prima, encomendou uma campanha perigosa, defendendo esse monopólio e rechaçando a privatização que os capitalistas usavam para ameaçá-la. O misterioso hóspede indicou-lhe a melhor saída, sugerindo que pusesse em dúvida a sinceridade dos espoliadores do Estado. Com poucas palavras e um bom refrão desmoralizaria-os perante a opinião pública. A frase proposta pelo estranho convidado encaixava-se perfeitamente ao papel: “Os monopólios são como os bebês, atrapalham muito é que você tenha o seu”.

Os clientes adoraram. Em outros momentos, ao longo daquelas duas semanas, o Lara e seu hóspede embarcaram em conversas mais elevadas, filosóficas mesmo. Discutiram até a origem do Universo:

- “Acaso a chuva tem pai? Ou quem gera as gotas de orvalho?” – especulou o mendigo, apontando para a inapreensibilidade da fonte universal da vida.

- Isso é uma citação ou você inventou agora? – perguntou o Lara.

- Não se inventa nada, meu caro, esse é o ponto. Tudo preexiste. Onde já se viu, alguém bem educado e lido como o senhor acreditar em fantasias de originalidade? Se o senhor encontrar uma frase, basta uma, cuja essência não tenha sido dita antes, convoque a imprensa e exija cobertura internacional, porque no meu entender será acontecimento inédito. Também a sabedoria preexiste a suas formulações.

- Que citação era essa, que pergunta sobre as origens do orvalho?

- Do Livro de Jó.

- Eu sempre achei, de todas as explicações para a Criação, que o Big-Bang era a mais inverossímil. O que também se aplica à de nossa origem individual, pois essa história de feto, cordão umbilical e bolsa d’água, convenhamos, é suspeitíssima.

- Claro. Isso é balela. É uma tapeação com a qual imaginam passar-nos para trás. Ouça o que digo e negue se puder. Um filho tem um pai, que tem seu pai, que tem o seu, “Vós sabeis que isso é o comum”. Mas aonde se chega ao final? Quem foi o primeiro a sair do repolho? E de que repolho exatamente saiu? E multiplique esse dilema pelo número de raças que existem no mundo. Quem pariu o primeiro negro, ou o primeiro branco? E o primeiro argentino torcedor do Boca Juniors?

- Esse último aí, sobretudo, é inexplicável. Mas acho que também concordo no plano geral. Agora, de uma coisa estou certo, conheço essa citação: Hamlet, ato um, cena dois.

O Lara estava até aprendendo…

A convivência entre aqueles homens, pouco a pouco, tornou-se uma rotina suave. O Lara aguardava o aparecimento da epígrafe com uma paciência delicada, sem pressa nenhuma. Ele tinha certeza de que ela viria de repente, quando menos esperassem. E, com essa certeza, viu dois meses se passarem.

Exatamente no sexagésimo dia, quando o Lara chegou da agência, um bilhete o esperava na mesa da sala:

“Caro Anfitrião,

assim como as citações que enuncio, gozo o momento. Sou volátil, passageiro. Ofereci-lhe uma imagem positiva de minha pessoa, espero que ao menos próxima à que tive do senhor. Mas agora devo isolar-me, preservando-nos da decepção mútua, resultado inexorável do convívio prolongado entre os seres humanos. Volto ao anonimato das ruas. A brevidade nunca é leviana. Em última instância, a vida é feita de primeiras impressões.”

O Lara sentou-se com o coração em disparada, e correu novamente os olhos pelo bilhete. Seu rosto iluminou-se, um rastro de excitação percorreu todo o seu corpo. Finalmente ela se mostrara! Indiscutível, indisputável. Ali, no milagroso aforismo do desconhecido, ululava a tão esperada epígrafe! A frase que resumia a essência da atividade publicitária, que a resgatava moralmente, que expressava a mensagem comum a todas as campanhas, das de gomas-de-mascar até as de candidatos à Presidência da República, a mensagem comum a todos os tempos e lugares, a todas as mídias: “Em última instância, a vida é feita de primeiras impressões”.



Revista Livro Aberto. Ano I – n° 2
DATA: novembro 1996
SEÇÃO: Conto
PÁGINA: 36-38