35 segredos para não chegar a lugar nenhum


Duas frases de Oscar Wilde vêm a calhar com o novo livro organizado por Ivana Arruda Leite, “35 Segredos para Chegar a Lugar Nenhum – Literatura de Baixo-Ajuda”. As frases são: “Toda arte é inútil” e “A única coisa necessária é o supérfluo”. 


Toda boa arte é verdadeiramente inútil: em sua subversão da linguagem funcional, só a inutilidade da linguagem literária é que serve a algo. E num mundo em que tudo se justifica pela necessidade, o apego ao supérfluo, ao desnecessário (um botão, uma flor velha, uma palavra bonita) também é um gesto que desordena a rotina e, por isso, a enriquece.

Lembrando mais uma frase, esta de um pianista uruguaio, Jorge Zulueta: “Alguma vez atire também algo útil e belo em sua lata de lixo”. É isso. O maior mérito do livro organizado por Ivana Arruda, que reúne Fernando Bonassi, André Sant’Anna, Antonio Prata, Beatriz Bracher, Cintia Moscovich e outros, é justamente mostrar como a literatura que se assume descaradamente como útil (a de auto-ajuda), é, no mau sentido da palavra, a mais inútil.

O livro também poderia se chamar, parodiando o conhecido rock, “a gente somos útil”, e é por isso que a auto-ajuda é tão predatória à grande literatura. Pois o indivíduo só pode pensar em começar a se ajudar a partir do inútil. O útil, a auto-ajuda, só chove no molhado.

|| Noemi Jaffe – Coletânea tenta subverter literatura de auto-ajuda